Uma noite em Veneza, com direito ao verdadeiro bellini

A propaganda, além de garantir minha sobrevivência com um certo conforto, me deu  a oportunidade de conhecer lugares e viver situações que, não fosse ela, provavelmente não teria conhecido, nem vivido. Como, por exemplo, participar da última edição do festival de Cannes em Veneza. Como assim?, perguntarão vocês, jovens afoitos, festival de Cannes em Veneza? Isso mesmo, meus caros. Até 1983 o festival da Sawa, mais conhecido como festival de Cannes, era realizado ora em Cannes, ora em Veneza.
O último a ser realizado em Veneza foi em 1983. E eu estava lá. E em condições que jamais poderia imaginar viver, mesmo nos mais loucos devaneios da juventude.
Na época eu era redator de uma poderosa multicional, que hospedava seus executivos nos melhores hotéis das cidades para onde eles se deslocavam representando a companhia. E o hotel que me coube, em Veneza, foi o maravilhoso Danieli, frente ao Grande Canal, com direito a mordomias inimagináveis, como uma lancha exclusiva para te levar e trazer do cassino na hora que você quisesse. Enfim, luxo maior, impossível.
O lobby do Danieli já te coloca no teu devido lugar, ou seja, debaixo de séculos de história. O meu quarto estava localizado na ala antiga. Grande, maravilhoso, com um enorme tapete persa cobrindo todo o chão. Fui direto para o banho, numa banheira antiga, com uma cortina de plástico que eu achei que não combinava muito bem com aquela suntuosidade toda. Depois eu entendi qual era a sua função. Mas aí já era tarde.
Ao terminar o banho e sair da banheira me deparei com o quarto inundado, o tapete persa encharcado, uma cena desoladora. Demorei alguns segundos para perceber que não eram as águas do Grande Canal que invadiram o quarto. Eu apenas deixara de colocar aquela  cortina sem graça para dentro da banheira. A água escorria pela cortina e corria para o quarto.
Fiquei apavorado. Ao descer, avisei o concierge que havia um “problema” no quarto. Uno sbaglio.
Sai do hotel e fui direto para o Harry’s Bar, o lendário lugar frequentado por gente como Hemingway, Orson Welles, Sinclair Lewis, entre outros. Aliás, o drink preferido dos três era o bellini, inventado ali mesmo por Giuseppe Cipriani, seu dono, num dia qualquer entre 1934 e 1948.
O drink tem esse nome em homenagem a Giovanni Bellini, porque Cipriani achava a cor do drink identica à cor da toga de um santo num dos quadros do pintor. Bellini, o drink, é feito com a polpa do pêssego, amassada até virar um purê, acrescida de prosseco, ou outro espumante. E algumas gotas de cherry brandy, para chegar na cor desejada. É uma bebida elegante, deliciosa, muito apropriada para o nosso verão.
Tomei vários bellinis. Voltei inebriado para o hotel. O concierge me entregou a chave sem dizer uma única palavra. Entrei no quarto. Tudo impecavelmente seco. Haviam retirado o tapete.
E, nos sete dias que me restaram no hotel, o tapete jamais foi reposto.
20 de dezembro de 2011

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