Sabores da infância III (carne louca)

 



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Eu nunca entendi muito bem por que se chamava carne louca. Mas era o carro-chefe em todos os aniversários, de crianças ou de adultos. Também, pudera: podia, e devia, ser feita com carne “de segunda”, mais barata, dentro do orçamento de uma família de classe média, operária, como a minha. E levava uma grande quantidade de ingredientes, como pimentões, tomates, abobrinhas, cebolas, branca e roxa, que engrossavam o caldo. Dentro de um pãozinho francês bem fresquinho, era irresistível…
A matéria-prima, a carne, ingrediente principal, variava muito, desde que fosse “de segunda”. Muita gente fazia, e faz até hoje, com lagarto, que não é bem uma peça considerada “de segunda”, muito usada também para rosbife. Eu não gostava, e não gosto. Gostava mesmo quando minha mãe usava uma peça de músculo, ou de acém. Aí, sim, eu me deliciava. É uma das minhas caríssimas memórias afetivas. Meus “sabores da infância”, que você encontra aqui mesmo neste blog sob os títulos sabores da infância (aqui) e sabores da infância II (aqui).
Esta receita que vou mostrar aqui, e que preparei outro dia para um almoço em São Francisco Xavier, para Luana, minha filha, e Luigi, seu marido e cozinheiro de mão cheia, é uma releitura da carne louca da minha infância. Eu costumo chamar de “carne de panela”. Vamos a ela:

Carne de panela à minha moda

Em primeiro lugar, esqueça o lagarto. Esqueça também qualquer corte mais sofisticado, como miolo da alcatra ou filé mignon. Não vai ficar tão saboroso quanto uma bela peça de músculo ou acém. Esta da foto foi feita com um miolo de acém, no qual esfreguei pimenta verde em grãos moída na hora, flor de sal, e deixei por no mínimo duas horas, ou, de preferência, de um dia para o outro, numa marinada com folhas de louro, tomilho, dentes de alho com casca e tudo, orégano fresco, alecrim e uma garrafa de cerveja preta (reserve mais uma garrafa caso seja necessário completar durante o cozimento). Quando chegou a hora de ir para o fogo, tirei a carne da marinada, coloquei azeite extra virgem numa panela de ferro, refoguei cebola e alho bem picadinhos, e selei a carne em grandes pedaços até ficar dourada. Então despejei a marinada, sem coar, na panela com a carne. E aí, meus queridos e minhas queridas, paciência, muita paciência. A carne deve ficar cozinhando em fogo baixo, com a panela tampada, por no mínimo quatro horas, ou até poder ser desfiada com o garfo. Essa da foto levou exatas cinco horas. Pode fazer na panela de pressão pra ganhar tempo? Pode. Luigi, meu genro, faz e fica muito bom. Eu prefiro fazer na panela de ferro. Acho que fica ainda mais saborosa.
Uma vez pronta, você pode servir com arroz branco, com polenta, ou como recheio de sanduíche, na baguete ou na ciabata. Acompanhado por um vinho tinto mais encorpado, um cabernet chileno, por exemplo, ou, se preferir cerveja, uma Guinness, ou uma Colorado Indica, é um prato de encher os olhos, a alma, o estômago e o coração.

 Bom apetite!

4 de março de 2014

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