Sabores da infância II

Retomando os sabores da infância, para falar da frittata que postei no facebook e prometi a receita aqui no blog, me vêm à lembrança sabores que já não sei mais se são sublimações minhas ou se eram verdadeiramente maravilhosos. Me inclino pela segunda hipótese. Como já contei aqui, os imigrantes do sul da Itália trouxeram para cá uma culinária que valorizava o sabor dos ingredientes mais simples. E, claro, mais baratos. Como eu contei no “Sabores da infância” anterior. Por uma incrível, e feliz, coincidência, comecei a ler “O Chalé da Memória”, que a Mari, minha mulher, já indicou na página dela. Tony Judt, o autor, escreve sobre as memórias que ficaram na sua mente, às vésperas de morrer de uma doença rara e incurável. Não é o meu caso, tranquilizo meus queridos amigos. Mas a idade faz com que fiquem na memória aquelas coisas que realmente marcaram nossas vidas, inclusive aromas, cores, sabores. Lembro, com água na boca, do ovo que minha mãe quebrava no molho de tomate fervendo, às vezes com muzzarella que se derretia toda, num poché que ela não sabia que tinha esse nome. Ou das favas amalgamadas no fogo com pão amanhecido, servidas numa pasta asciutta com legumes cozidos, coisa de pobre, mas que delícia. Ainda não me atrevi a fazer. Mas quando fizer prometo contar pra vocês. Mas vamos à frittata. Essa aí da foto não é exatamente a frittata que minha mãe fazia. Essa tem veleidades estéticas. A de minha mãe, não. Era mais um mexido, onde o ingrediente principal, além do ovo, era a batata em rodelas. Mas podia entrar também tomate, cebola, presunto, queijo, dependendo da disponibilidade. Essa da foto é mais uma omelete aberta, muito fácil de fazer. Eu fiz assim, para duas pessoas:
Quebrei quatro ovos num vasilhame. Misturei bem com um fuet. Se você não tem fuet, misture com um garfo. Dá na mesma. Jamais coloque sal, que quebra as moléculas do ovo, interferindo na sua homogeneidade. Esquente numa frigideira antiaderente um belo naco de manteiga sem sal. Quando ela derreter, jogue a mistura de ovos. Parêntesis: antes disso, fatie dois tomates bem vermelhos e tempere-os com sal e azeite. Reserve. Voltemos à frigideira. Trinta segundos depois de ter colocado os ovos mexidos na frigideira com a mateiga, em fogo baixo, pelo amor de Deus, coloque cuidadosamente as rodelas de tomate temperadas por cima, como se fosse uma pizza. Sobre os tomates, coloque fatias finas de queijo amarelo. Pode ser gruyere, emental, estepe, cobocó, ou prato mesmo. Não tampe a frigideira. A idéia é que o queijo derreta, em fogo baixo, no calor que vem de baixo, e não no vapor, para que ele fique com a aparência da foto. Não falei que era fácil? Eu servi com um vinho tinto, um pinot noir, que a Mari gosta. Se dependesse de mim eu serviria com um sirah. Os especialistas talvez recomendassem um vinho branco mais encorpado. Enfim, vale o que você achar melhor.
Bom apetite!
20 de agosto de 2012

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