O violinista

 

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Tinha um leve sorriso nos lábios. Daqueles sorrisos que uma lembrança suave provoca na gente. Um quê de tristeza, um quê de melancolia, até uma certa ironia.

Ele estava sempre lá, naquele banco da praça. Empunhava o que parecia ter sido, um dia, um violino. Nunca tocava. Só segurava, sobre o colo, com a vareta em uma das mãos, que de vez em quando fazia um movimento como se regesse uma orquestra invisível.

Algumas pessoas depositavam uma ou duas moedas na caixinha que ficava ao seu lado, no banco da praça. Quando isso acontecia, ele fazia menção de tirar o chapéu, num gesto muito elegante. Ele era elegante, naqueles trajes tão surrados.

Era bonito. Debaixo do chapéu, nas poucas vezes em que o tirava, além da simples menção de tirá-lo, geralmente quando se tratava de uma moça bonita a depositar uma moeda, dava para ver os cabelos desgrenhados, grisalhos, que formavam uma bela moldura para seu rosto expressivo, angular, com uma certa nobreza, e o sorriso, o leve sorriso, sempre nos lábios.

Nas minhas fantasias de ladrão de histórias, imaginava que ele era um nobre russo, ou um cavalheiro espanhol, que passara a vida lutando contra moinhos de vento em defesa da mulher amada, ou um jogador, que perdera toda a fortuna em cassinos elegantes, de Veneza a Monte Carlo, e um dia viera parar aqui, nos trópicos, com a única coisa que lhe restou dos tempos de glória, aquele velho violino.

Sempre tivera vontade de sentar ao seu lado, naquele banco da praça, oferecer um cigarro, como nos filmes antigos, e ouvir a sua história. Nunca fiz isso, não sei bem por quê, se por timidez, se por respeito ao espaço que parecia ser dele desde que aquele banco da praça existia, se por puro medo de que sua história não correspondesse às histórias que minha fantasia havia imaginado.

Até que um dia rompi as barreiras que eu mesmo havia criado, pedi licença e sentei ao seu lado. Ele fez um gesto com a cabeça como que permitindo a minha intromissão no seu mundo. Não se moveu, deixando para mim um pequeno espaço, uma vez que ele ocupava o centro do banco. Me ajeitei, criei coragem, e perguntei por que ele nunca tocava o violino.

Ele me olhou com sincero espanto. Fez um gesto largo com a mão que segurava a vareta, e disse, com um leve sotaque que não era russo, nem espanhol, nem alguma coisa que eu pudesse identificar:

Você não ouve? Você é muito jovem…

E continuou lá, regendo, de vez em quando, num gesto suave, a orquestra imaginária. Não falou mais nada. Nem eu tive coragem de perguntar. Fiquei mais um pouco, tentando ouvir aquela música que vinha de algum lugar e que só quem lutou contra moinhos de vento para defender a mulher amada poderia ouvir.

Hoje, quando volto àquele banco da praça, depois de ter lutado contra meus próprios moinhos, sento no lugar que era dele e, finalmente, consigo ouvir a musica que ele regia.

E um sorriso, um leve sorriso, aflora em meus lábios.

 

25 de outubro de 2016

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