O melhor sanduíche que comi na vida

Quando garoto, um dos meus amores absolutos era o Palmeiras, o time de futebol. Nada mais normal. Afinal, numa grande família italiana não havia como torcer por outro time que não fosse o Palestra Itália. E eu torcia desesperadamente. Ouvia os jogos no rádio, numa época em que não havia televisão. Sabia a escalação do time de cor. Sofria nas derrotas, sonhava com os jogos do dia seguinte e, no dia seguinte a uma derrota, sonhava com o que poderia ter sido uma vitória. Em compensação, as vitórias do Palmeiras me deixavam em paz com o mundo. Era tão fanático que quando, em 1958, no jogo contra a então União Soviética, o técnico da seleção brasileira, Vicente Feola, substituiu Mazola, o grande ídolo do Palmeiras, eu pensei seriamente em torcer contra o Brasil. Eu tinha, então, 11 anos. No final, acabei torcendo pelo Brasil, contagiado pela torcida que ouvia o jogo através de um alto-falante, numa praia de Santos, onde meu pai me levara numa excursão da fábrica em que trabalhava. Vavá, que substituiu Mazola, fez os dois gols da vitória do Brasil.

Com o tempo o fanatismo diminuiu, a ligação com o futebol diminuiu, o interesse pelos jogos diminuiu. O amor pelo Palmeiras, apesar de adormecido, não.
Embora não acompanhasse mais os jogos regularmente, quando havia oportunidade eu assistia pela televisão.
Uma noite, voltando para o apartamento em que morava sozinho, no Morumbi, lembrei que naquela noite o Palmeiras disputava a semifinal da Libertadores com seu arquirrival, o Corintians. Era o ano 2000. O jogo provavelmente estava sendo televisionado. Talvez já tivesse terminado. Por via das dúvidas, liguei a televisão. O jogo havia terminado. A decisão ia para os pênaltis, e estava prestes a começar. Fiquei ali, em frente à televisão, como ficava aos pés do rádio na infância, totalmente hipnotizado por aquele momento único que, por acaso, eu teria o privilégio de assistir. Depois de cinco cobranças do Palmeiras, as cinco convertidas em gol, o Corintians se preparava para a sua quinta cobrança. Se perdesse, o Palmeiras seria o vencedor. Marcelinho Carioca, o grande ídolo do Corintians na época, foi para a cobrança, com a confiança de quem falava diretamente com Deus. Só que dessa vez Deus resolveu ignorá-lo. Marcos, o goleiro do Palmeiras, defendeu o pênalti.
Naquele momento, se eu tivesse algum poder sobre o universo, daria todas as estrelas do céu para o meu pior inimigo. Minha alma parecia que ia estourar. Sai na varanda, gritei para a noite vazia, como se estivesse no estádio lotado. Já passava da meia-noite, naquele lugar ermo onde morava, e eu não sabia o que fazer para extravar minha necessidade de abraçar todas as pessoas, amigas ou não, conhecidas ou não. Aos poucos essa euforia foi passando, a quantidade de oxitocina fabricada pelo meu corpo foi diminuindo, e eu percebi que estava com fome.
Àquela hora, não havia como pedir nada, nenhum delivery, nem uma pizza. Na cozinha eu encontrei um pão de forma. Na geladeira encontrei um tomate e algumas fatias de queijo prato. Até para prolongar ao máximo aquele momento de felicidade absoluta, comecei a fatiar o tomate em fatias superfinas. Coloquei as fatias num prato, salguei com flor do sal, reguei com azeite. Não tinha manjericão em casa, mas tinha orégano. Salpiquei sobre os tomates. Peguei duas fatias de pão de forma. Numa delas coloquei as fatias de queijo e, sobre elas, as fatias de tomate, finissímas, já temperadas. Coloquei a outra fatia de pão de forma por cima, acomodei-as naquele utensílio de tostex, e levei ao fogo. Fui virando, de uma lado para o outro, até dourar por igual e o queijo derreter. Esqueci de dizer que untei o tostex com azeite.
Eu tinha uma única garrafa de vinho em casa. Um bordeaux premiere cru, que trouxera da França, e estava guardando para uma ocasião especial. Não hesitei. Abri o vinho. E saboreiei o sanduiche bem devagarinho, intercalando com goles daquele néctar maravilhoso.
Foi o melhor sanduiche que eu fiz, e comi, na vida. Acompanhado do melhor vinho que já provei.
Tudo isso porque eu não deixei passar aquele momento. E o transformei num privilégio.
O que eu quero dizer é que você pode tirar o melhor proveito das coisas mais simples. Só depende de você. Como diz o subtítulo deste blog, não precisa muito para ser feliz.
Às vezes um simples queijo quente basta.
Se puder ser acompanhado por um bom vinho e pela vitória do seu time, melhor ainda.
Saúde!
14 de dezembro de 2011

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