O cabo de madrepérola

 

o-cabo-de-madreperolaGanhara o guarda-chuva de presente da tia rica. Guarda-chuva não era o presente dos sonhos de um garoto de onze anos. Ainda mais vindo da tia rica. Mas ele precisava. A mãe havia sugerido esse presente à sua irmã, a tia rica.

Ele estudava à noite. Primeiro ano do ginásio. Em São Paulo, naquele tempo, garoava quase toda noite. E a escola ficava a 5 quilômetros de distância de sua casa. Que ele percorria a pé.

É, pensando bem, ele precisava do guarda-chuva. E, já que esse era o presente, resolveu ser feliz com ele. Já na primeira noite levou-o consigo para a escola, embora não estivesse chovendo e nada indicasse que viria a chover naquela noite. Mas era o seu presente de aniversário! E o cabo era tão bonito, de madrepérola. “Cuidado, não vai esquecer o guarda-chuva na escola”, a mãe não cansou de recomendar. Sabia como ele era distraído.

Fez do guarda-chuva espada, espingarda, gancho do capitão de mesmo nome invariavelmente derrotado por Peter Pan. O guarda-chuva foi o grande herói das brincadeiras no pátio, antes das aulas e no intervalo.

Corre pra cá, corre pra lá, puxa pra cá, puxa pra lá, e o inevitável aconteceu: o lindo cabo de madrepérola rachou e se partiu ao meio. Não podia acontecer tragédia maior. Como explicar para a mãe, que tanto cuidado recomendara? Como dizer à tia rica, que com tanto carinho lhe dera? Como viver, dali para a frente, sem o guarda-chuva com o lindo cabo de madrepérola?

Chegou em casa bem tarde, com o guarda-chuva disfarçado debaixo do braço. A mãe sempre o esperava com um lanche, um suco, um agrado de mãe. Deu um jeito de passar primeiro no quarto, escondeu o guarda-chuva, e voltou para receber o agrado e dar boa noite.

Voltou para o quarto, fingiu que dormia, esperou o silêncio, foi ao banheiro, onde sabia que encontraria goma arábica e fita adesiva (naquele tempo não existia superbonder…). Voltou para o quarto, pegou o guarda-chuva, juntou os dois pedaços do cabo de madrepérola com a goma arábica, enrolou com a fita adesiva, escondeu dentro do armário, e rezou. Sabia que o remendo que fizera não teria nenhum efeito sem a intervenção divina.

Rezou a noite inteira.

Explicou pra Deus que não tivera a intenção de quebrar o lindo cabo de madrepérola do guarda-chuva que a tia rica lhe dera de presente de onze anos. Que faria qualquer coisa que Deus pedisse em troca desse milagre. Lá pelas quatro da madrugada não resistiu, e caiu no sono.

De manhã, antes de ir para a imobiliária do bairro, onde aprendia o oficio de auxiliar de escritório, eufemismo para garoto de recados, abriu a porta do armário, olhou o guarda-chuva, mas não teve coragem de tirar a fita adesiva para ver se o milagre se realizara. Deixou para a noite. Passou o dia esperando a noite. Esperando o milagre.

Esperou todo mundo dormir. Tirou o guarda-chuva do armário. Desenrolou a fita adesiva do lindo cabo de madrepérola que, solto da compressão da fita, voltou a ser o que era: um lindo cabo de madrepérola partido em dois pedaços. Um lindo cabo de madrepérola, inútil para sempre.

Sua decepção não poderia ter sido maior. Decepção só comparável ao dia em que a Lúcia, menina mais linda do bairro, lhe dissera que gostava de outro garoto, e não dele. Decepção não pelo guarda-chuva inutilizado, pelo lindo cabo de madrepérola partido, pelo presente de aniversário de onze anos irremediavelmente perdido.

A decepção era por descobrir que, embora todo-poderoso, Deus não sabia consertar cabo de guarda-chuva.

 

11 de outubro de 2016

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