Mulheres da vida

 

Descia do ônibus na confluência das avenidas Cásper Libero, Senador Queiroz e Ipiranga. Pegava a rua dos Andradas, atravessava a Aurora, a Vitória, a praça Júlio Prestes, continuava pela Dino Bueno até chegar à Eduardo Prado, mais ou menos doze quarteirões depois, onde ficava a firma em que trabalhava como auxiliar de escritório. De manhã cedinho, lá pelas sete, sete e meia, cruzava com bêbados, mendigos, malandros, e uma ou outra prostituta, ainda tentando conseguir algum freguês retardatário. Àquela hora, ninguém ligava muito pra ele, adolescente, indo para o trabalho, de terno e gravata, sem olhar para os lados. Ele também não prestava muita atenção em ninguém, ainda com sono, apressado, doze quarteirões, um longo caminho, sem tempo a perder, até mesmo para alongar os olhos em direção a um ou outro par de coxas sobreviventes àquela hora.

Já na volta, entre cinco e meia e seis da tarde, doze quarteirões, a caminho do ponto do ônibus que o levaria para o colégio onde estudava à noite, a história era outra. Em cada porta de cada velho sobrado, na sua maioria transformados em cortiços, uma, duas, às vezes três prostitutas. Algumas, a maioria, já maltratadas pelos longos anos naquelas calçadas e camas, algumas até que jeitosas, vestidas com saias curtíssimas, perfume barato, lábios e olhos muito pintados. Muitas mexiam com ele. Garoto, vem cá, vou te ensinar umas coisas… Ele apressava o passo, enrubescia, queria sumir, queria aceitar, queria aprender umas coisas…

Mulheres da vida, assim eram chamadas. Na sua rua, uma das moças mais desejadas, inclusive por ele, e que não dava bola pra ninguém, segundo as más línguas das fofoqueiras do bairro, ganhava a vida numa daquelas ruas, Aurora, Vitória, Triunfo, mulher da vida…

Ele imaginava se um dia a veria, numa das portas daqueles cortiços, Ivete, branca como a neve, objeto de desejos inconfessáveis. Se ele a encontra-se por ali, fazendo a vida, como se dizia, como seria? Ela se esconderia? Ou mexeria com ele? Vem cá que vou te ensinar umas coisas…

Sonhava com Ivete, na porta de um dos cortiços da rua dos Andradas, entre a Aurora e a Vitória, de saia curtíssima, mostrando suas coxas brancas, muito brancas, lábios vermelhos, cabelos curtos, como nunca a vira lá pelos lados do bairro operário onde ambos moravam.

Nunca encontrou Ivete na porta de nenhum cortiço. Quem lhe ensinou umas coisas foi Bete, morena de coxas generosas, numa noite em que superou a timidez, perdeu a vergonha, mulheres da vida, e se deixou ficar pelo caminho…

8 de Janeiro de 2018

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