Luis Buñuel, São Tomás de Aquino e a receita do dry martini



 

O dry martini é provavelmente o drink mais simples, mais complicado e, por isso mesmo, mais controverso que existe. Basicamente uma mistura de gim com algumas gotas de vermute, de preferência Noilly Prat, existem tantas receitas desse néctar dos deuses quantos são seus apreciadores, entre os quais me incluo. Existe até uma lenda que diz que, se você estiver absolutamente só no meio do deserto, e por um desses caprichos do destino tiver os ingredientes para preparar um dry martini, assim que começar a fazê-lo vai aparecer alguém para dizer que aquele não é o jeito certo. E, para o bem ou para o mal, sua solidão foi para o brejo. Se bem que, no meio do deserto, vai ser difícil encontrar um brejo.
Luis Buñuel, o genial cineasta espanhol, dedica em sua autobiografia duas páginas inteirinhas sobre o drink. Segundo ele, muitos aficionados, no afã de preparar o dry martini mais seco possível (quanto menos vermute, menos doce, e portanto mais seco), defendiam a idéia de que bastava um raio de sol atravessar a garrafa do vermute e atingir a taça de gim para que a bebida atingisse o estado da arte.
Ainda segundo Buñuel, os mais radicais chegavam a citar como exemplo a concepção da Virgem Maria que, segundo São Tomás de Aquino, teve seu hímen atravessado pelo poder gerador do Espírito Santo sem rompê-lo, “assim como um raio de sol passa através de uma vidraça sem quebrá-la”. Esse seria o efeito do raio de sol atravessando a garrafa de Noilly Prat e fecundando o gim, numa concepção perfeita.
Embora considerasse essa incursão pela Escolástica um exagero, Buñuel era apreciador do drink muito seco. Eu também. Esse dry martini da foto eu preparei assim:
Enchi uma coqueteleira com cubos de gelo. Coloquei sobre os cubos de gelo 4 gotas de Noilly Prat. Mexi com uma bailarina. Descartei o vermute, sem descartar o gelo. Sobre os cubos de gelo já perfumados pelo vermute, despejei 2 doses de gim. Novamente mexi suavemente com a bailarina. E, finalmente, coloquei o néctar na taça previamente gelada, sem o gelo.
E a azeitona?, perguntará você.
A azeitona, meu amigo, minha amiga, é absolutamente fundamental. Mergulhada no precioso líquido, com ou sem palito, ela deve ser degustada junto com o drink. A azeitona é o único, e perfeito, acompanhamento permitido.
Bom, essa é a minha receita. Mas, ainda segundo São Tomás de Aquino, todo ser humano é dotado do livre-arbitrio. Então, não se acanhe em criar a sua.
Saúde!
24 de novembro de 2011

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *