Em busca da identidade

 

 

Disseram que era para ele esperar ali. Mas isso já fazia pelo menos umas quatro horas. E tudo o que ele queria era apenas a segunda via da carteira de identidade. Não sabia onde a deixara. Procurara por toda parte. Em vão. Por isso resolvera comparecer à Central de Segunda Via de Identidades Perdidas. Acreditava que seria fácil. Disseram para ele que iriam fazer algumas perguntas. Era só responder com sinceridade. Dizer a verdade. E lhe dariam uma segunda via. E ele teria sua identidade de volta.

Na noite anterior, quase na porta de casa, fora parado por uma blitz do Comando de Verificação de Identidades, CVI. Pediram sua identidade. Só então se dera conta de que há tempos não a usava. Não estava com ele, naquele momento, justificou. Mas garantiu que tinha uma identidade. Morava logo ali. Era só procurar no passado. Por sorte um vizinho que passava naquele momento garantiu ao gendarme que o conhecia. Não sabia se ele tinha identidade, mas morava ali mesmo, desde o tempo da Grande Esperança. O gendarme, desconfiado, entregou-lhe um folheto, com a recomendação expressa de que se apresentasse, no dia seguinte, ao Comitê Central da CVI, com sua verdadeira identidade.

Foi o que ele fez. E ali estava, há pelo menos umas quatro horas, enquanto pessoas passavam de um lado pro outro, no imenso corredor, algumas fardadas, outras, não. Finalmente, uma moça de camisa social branca, saia azul marinho, justa, que descia até o meio das canelas, cabelos negros presos num elegante coque, óculos redondos de aro de tartaruga, surgiu numa das portas do imenso corredor e fez sinal para que a acompanhasse.

Entrou numa grande sala, com uma enorme mesa de madeira no centro e mais nada em volta. A moça fez sinal para que ele sentasse na única cadeira existente. Esperou.

Passados alguns minutos, entrou um General de Infantaria, com uma belíssima farda azul com debruns vermelhos, até parecia um Marechal. Perguntou, com ar amigável, o que ele estava fazendo ali, meu rapaz. Ele contou tudo de novo. A perda da identidade. O gendarme desconfiado. A busca pela segunda via.

O Marechal, ou General, ou seja lá que autoridade era ou pensava que fosse, olhou-o com profunda comiseração: “não existe segunda via, meu rapaz. Identidade é uma só. Uma vez perdida, não tem volta…”.

E o que eu faço agora, ele perguntou, ou pensou que perguntou.

Com o tempo, acostumou-se a viver sem identidade. Conheceu outros iguais, que também viviam sem identidade. Para dizer a verdade, a maioria…

 

23 de fevereiro de 2017

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