Dois pra lá, dois pra cá e um cuba libre no meio

 

cuba-libre-1

Conta a lenda que um certo capitão Russell, comandante das forças que ajudaram Cuba a se livrar da Espanha, ao comemorar a vitória, teria pedido ao garçom que misturasse rum, bebida nativa dos cubanos, com Coca Cola, bebida ícone dos americanos. Ainda não satisfeito, pediu uma rodela de limão. Seus comandados, com o claro objetivo de puxar-lhe o saco, pediram a mesma coisa. A certa altura, o comandante, depois de várias doses, propôs um brinde: a Cuba Libre. Pronto, estava criado um dos drinques mais famosos do mundo.

Acontece que os historiadores descobriram um furo nessa história: o tal capitão Russell, da Army Signal Corps, só chegou a Cuba em 1900, dois anos depois da expulsão dos espanhóis, em 1898. Então como é que fica essa história? Não tem problema. A lenda rapidamente foi recontada pelos contadores de lendas, que não se conformaram em perder tão deliciosa história. Na verdade, quem teria levado a Coca Cola a Cuba foi o coronel Theodore Roosevelt, comandante dos Rough Rangers, exatamente em 1898. Como ele não bebia álcool, não pode inventar o Cuba Libre, deixando para seu compatriota, o tal de Russell, a nobre tarefa, dois anos depois, em 1900.
Mas as atribulações do drinque que marcou minha adolescência não terminaram aí. Quando Fidel Castro desceu de Sierra Maestra para dar um pé na bunda de Fulgencio Batista, em 1959, e proclamar Cuba Libre, deparou-se com algo que parecia o fim da mistura inventada no raiar do século: como uma bebida, que leva na sua composição a bebida dos campeões do imperialismo, a Coca Cola, poderia ser a bebida símbolo da revolução que iria justamente banir os imperialistas da Ilha?
Depois de vários charutos, eureka, Fidel achou a solução, não sem uma pequena ajuda do seu amigo argentino, Ernesto: era só abrir uma fábrica de Tropicola. Assim foi feito. Hoje, em Cuba, você pode continuar se deliciando com o autêntico Cuba Libre, com rum, Tropicola e uma rodela de limão.
Como eu disse algumas linhas acima, o Cuba Libre marcou minha adolescência. Era o início dos anos 60, “os anos dourados”. E era dezembro, o mês mais bonito do ano. A letra de Chico Buarque para a música de Tom Jobim, trilha sonora da minissérie “Anos Dourados”, na minha opinião é a mais perfeita tradução de dezembro:
Meus olhos molhados
Insanos, dezembros
Mas quando me lembro
São anos dourados
Ainda te quero
Bolero, nossos versos são banais
Para minha geração, e, embora eu seja um pouco mais novo, nela Chico se inclui, dezembro era o mês, além das festas tradicionais e do meu aniversário, dos bailes de formatura.

Ah, os bailes de formatura… Sem nenhum saudosismo, mas sim como uma agradável lembrança, eram bailes mesmo, em salões imponentes, com orquestras de verdade, como as de Zezinho e Luís Arruda Paes, Pocho, Sílvio Mazzuca, Érlon Chaves, com direito a crooner e tudo. E nós esperavámos o ano inteiro pelo mês dos bailes de formatura.

Naquele ano, com muito sacrifício, eu conseguira comprar o tecido para fazer o terno com o qual iria ao baile mais importante do ano: um “corte” de tropical inglês preto. O dinheirinho economizado o ano inteiro ainda deu para pagar o Adão, alfaiate lá do Brás, que fazia os ternos de Wanderley Cardoso e Jerry Adriani. E por que aquele baile era tão especial? Porque eu iria dançar com a menina mais bonita do IAPI, reduto das mais belas garotas da Moóca.
Tímido como sempre fui, não aguentava esperar a hora. Já a vira passando pelo salão, mais linda do que nunca, parecia a Lurdinha, papel de Malu Mader na minissérie “Anos Dourados”.
Fui ao bar e pedi um Cuba Libre. Enquanto a orquestra tocava uma valsa dolente, eu ia virando um cuba libre atrás do outro… Não deu outra: na hora tão esperada, eu não era capaz nem de dar dois passos pra lá, dois pra cá. Tudo bem. Também a menina não era tão bonita assim.
P.S.: já ia esquecendo de dar receita. É muito simples: copo longo, muito gelo, 1/3 de rum, 2/3 de Coca Cola, uma rodela de limão. Pode usar Coca Zero? Pode, mas não deve. Se é pra enfiar o pé na jaca, vamos fazer direito…

Saúde!

5 de dezembro de 2012

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *