Chispa de fogo

 

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Aquela sandália, diferente de tudo o que se conhecia na época, com uma fina tira entre os dedos que se juntava, no peito do pé, às outras tiras muito finas que vinham das laterais, num desenho de delicada elegância, deixava as moças nuas da canela para baixo. Sua sola sem salto deixava solto o movimento dos quadris, num rebolado natural, provocante, sem afetação. E aqueles pés nus, realçados pela sandália, eram quase escandalosos, se não fossem tão belos!

Chamava-se Chispa de Fogo. E era a coqueluche, no começo dos anos 50, entre as moças da Mooca, do Brás, do Belém, até o Tatuapé. Subindo ou descendo a Celso Garcia, a pé ou de ônibus, em direção ao trabalho ou voltando para casa, elas, as moças, eram o sonho proibido dos rapazes, andando displicentes, pisando em nuvens, e em corações, sem nada nos pés que não fosse a divina sandália adorada por elas e detestada pelos pais, preocupados com tanta sensualidade num tempo sem pílulas que pudessem liberá-las para tudo o que os pés sugeriam.

A Chispa de Fogo surgiu do sonho de três homens ligados por laços familiares. Um, operário não qualificado, trabalhador de uma tecelagem, onde se ocupava do tingimento de tecidos. O outro, entalhador e desenhista, artista de talento nato, que desenhou a sandália. E o terceiro, sapateiro, pescador, visionário, que teve a ideia do negócio.

E saíram produzindo aquele acessório que ficaria na lembrança de quem viveu essa época, naqueles bairros operários de São Paulo. O sucesso foi tão grande que os três, e suas famílias, passaram a sonhar com a fartura que sua condição de classe media baixa não permitia.

Foram tempos de grandes esperanças. Que, por um mistério quase indecifrável para quem não tinha intimidade com as regras do capitalismo, ou da matemática, não se concretizavam. O dinheiro correspondente ao sucesso de vendas não entrava. A conta não fechava.

Contrataram um contador para por ordem no negócio. Não havia mistério nenhum: somando insumos, matérias-primas, mão-de-obra, e comparando com o preço de venda, tudo ficava claro. As sandálias eram vendidas por menos do que custavam. Ou seja, quanto mais vendiam, mais afundavam.

Atônitos, viram a empresa naufragar. A Chispa de Fogo, para tristeza de todos, menos para os pais das moças de pés nus, foi por água abaixo. Nunca mais Chispa de Fogo, nunca mais aqueles pés nus, realçados pela sandália, nunca mais aquele andar de quadris soltos, que inflamava a imaginação dos rapazes, subindo ou descendo a Celso Garcia, da Mooca ao Tatuapé.

Os três sonhadores já se foram.

Um deles era meu pai.

 

23 de novembro de 2016

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