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Em busca da identidade

 

 

Disseram que era para ele esperar ali. Mas isso já fazia pelo menos umas quatro horas. E tudo o que ele queria era apenas a segunda via da carteira de identidade. Não sabia onde a deixara. Procurara por toda parte. Em vão. Por isso resolvera comparecer à Central de Segunda Via de Identidades Perdidas. Acreditava que seria fácil. Disseram para ele que iriam fazer algumas perguntas. Era só responder com sinceridade. Dizer a verdade. E lhe dariam uma segunda via. E ele teria sua identidade de volta.

Na noite anterior, quase na porta de casa, fora parado por uma blitz do Comando de Verificação de Identidades, CVI. Pediram sua identidade. Só então se dera conta de que há tempos não a usava. Não estava com ele, naquele momento, justificou. Mas garantiu que tinha uma identidade. Morava logo ali. Era só procurar no passado. Por sorte um vizinho que passava naquele momento garantiu ao gendarme que o conhecia. Não sabia se ele tinha identidade, mas morava ali mesmo, desde o tempo da Grande Esperança. O gendarme, desconfiado, entregou-lhe um folheto, com a recomendação expressa de que se apresentasse, no dia seguinte, ao Comitê Central da CVI, com sua verdadeira identidade.

Foi o que ele fez. E ali estava, há pelo menos umas quatro horas, enquanto pessoas passavam de um lado pro outro, no imenso corredor, algumas fardadas, outras, não. Finalmente, uma moça de camisa social branca, saia azul marinho, justa, que descia até o meio das canelas, cabelos negros presos num elegante coque, óculos redondos de aro de tartaruga, surgiu numa das portas do imenso corredor e fez sinal para que a acompanhasse.

Entrou numa grande sala, com uma enorme mesa de madeira no centro e mais nada em volta. A moça fez sinal para que ele sentasse na única cadeira existente. Esperou.

Passados alguns minutos, entrou um General de Infantaria, com uma belíssima farda azul com debruns vermelhos, até parecia um Marechal. Perguntou, com ar amigável, o que ele estava fazendo ali, meu rapaz. Ele contou tudo de novo. A perda da identidade. O gendarme desconfiado. A busca pela segunda via.

O Marechal, ou General, ou seja lá que autoridade era ou pensava que fosse, olhou-o com profunda comiseração: “não existe segunda via, meu rapaz. Identidade é uma só. Uma vez perdida, não tem volta…”.

E o que eu faço agora, ele perguntou, ou pensou que perguntou.

Com o tempo, acostumou-se a viver sem identidade. Conheceu outros iguais, que também viviam sem identidade. Para dizer a verdade, a maioria…

 

A mochila vermelha

Para dizer a verdade, nem era pra ele estar lá naquele momento. Fora tudo um mal entendido. Aquela mensagem não era para ele. Mas, distraído como sempre, nem notara. Pegou seu casaco e se mandou para a rodoviária. Esqueceu de pegar os documentos.

A mensagem dizia para ele esperar na área de desembarque. Ela estaria carregando uma mochila vermelha.

Quem era ela mesmo? Ah, claro, Margô. Pelo menos era o nome que assinava a mensagem. Mas quem era Margô? Só podia ser Margarida, que ele encontrara chorando num dos corredores do Copan, na ala das quitinetes, dizendo que precisava de dinheiro pra ver o pai, coitado, sozinho, em Itapira, à míngua, à beira da morte, e que um conhecido, que demorou para localizá-la, levou para um albergue da Santa Casa, e pelo menos lhe davam uma sopa quente. Quer dizer, não tão quente. Mas era o que tinha.

Claro que ele entregou o dinheiro que tinha no bolso, que não era muito, mas dava pra comprar a passagem de ônibus. E foi a última vez que a viu. Isso já tinha uns dois meses.

Agora, enquanto esperava, matutou: se era Margarida, a que ele conhecia dos corredores do Copan, por que ela explicava na mensagem como identificá-la, pela mochila vermelha, se ele já a conhecia?

Vai ver é coisa de mulher, esses mistérios. O que ele esperava, e por isso atendera tão afoito à mensagem, que nem era para ele, é que ela pagasse o que lhe devia.

Lá vem a mulher com a mochila vermelha. Não é Margarida. Ele não tem a menor ideia de quem seja. O que eu faço? Por via das dúvidas, se aproximou dela. A mulher parou em frente a ele. Olhou bem nos seus olhos. E lhe entregou a mochila vermelha.

O que é isso? Calma, gente. Vocês estão pegando a pessoa errada. Eu estava esperando a Margarida. Ela disse que vinha com uma mochila vermelha. Vocês estão enganados. Eu só queria o dinheiro que emprestei pra ela… nem cigarro eu fumo…

No camburão, as pessoas olhando para ele com ar de reprovação, ele tenta entender o que aconteceu. E a Margarida que não aparecia para livrá-lo daquela situação. A mulher da mochila vermelha parece ser amiga dos homens que o jogaram ali como se fosse um saco de batatas. Mas ninguém ouve o que ele diz. E, ainda por cima, esqueceu de pegar os documentos…

 

Chispa de fogo

 

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Aquela sandália, diferente de tudo o que se conhecia na época, com uma fina tira entre os dedos que se juntava, no peito do pé, às outras tiras muito finas que vinham das laterais, num desenho de delicada elegância, deixava as moças nuas da canela para baixo. Sua sola sem salto deixava solto o movimento dos quadris, num rebolado natural, provocante, sem afetação. E aqueles pés nus, realçados pela sandália, eram quase escandalosos, se não fossem tão belos!

Chamava-se Chispa de Fogo. E era a coqueluche, no começo dos anos 50, entre as moças da Mooca, do Brás, do Belém, até o Tatuapé. Subindo ou descendo a Celso Garcia, a pé ou de ônibus, em direção ao trabalho ou voltando para casa, elas, as moças, eram o sonho proibido dos rapazes, andando displicentes, pisando em nuvens, e em corações, sem nada nos pés que não fosse a divina sandália adorada por elas e detestada pelos pais, preocupados com tanta sensualidade num tempo sem pílulas que pudessem liberá-las para tudo o que os pés sugeriam.

A Chispa de Fogo surgiu do sonho de três homens ligados por laços familiares. Um, operário não qualificado, trabalhador de uma tecelagem, onde se ocupava do tingimento de tecidos. O outro, entalhador e desenhista, artista de talento nato, que desenhou a sandália. E o terceiro, sapateiro, pescador, visionário, que teve a ideia do negócio.

E saíram produzindo aquele acessório que ficaria na lembrança de quem viveu essa época, naqueles bairros operários de São Paulo. O sucesso foi tão grande que os três, e suas famílias, passaram a sonhar com a fartura que sua condição de classe media baixa não permitia.

Foram tempos de grandes esperanças. Que, por um mistério quase indecifrável para quem não tinha intimidade com as regras do capitalismo, ou da matemática, não se concretizavam. O dinheiro correspondente ao sucesso de vendas não entrava. A conta não fechava.

Contrataram um contador para por ordem no negócio. Não havia mistério nenhum: somando insumos, matérias-primas, mão-de-obra, e comparando com o preço de venda, tudo ficava claro. As sandálias eram vendidas por menos do que custavam. Ou seja, quanto mais vendiam, mais afundavam.

Atônitos, viram a empresa naufragar. A Chispa de Fogo, para tristeza de todos, menos para os pais das moças de pés nus, foi por água abaixo. Nunca mais Chispa de Fogo, nunca mais aqueles pés nus, realçados pela sandália, nunca mais aquele andar de quadris soltos, que inflamava a imaginação dos rapazes, subindo ou descendo a Celso Garcia, da Mooca ao Tatuapé.

Os três sonhadores já se foram.

Um deles era meu pai.

 

Aquele olhar obsceno

 

 

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O jeito como ele me olhava, doutor. Aquele olhar obsceno, doutor. Eu me sentia nua, perdida, violentada. Era todo dia, doutor. Quando eu vinha chegando ele já estava de pé na porta da oficina. Ele sabia a hora em que eu passava. Era de manhã e de tarde. Na ida e na volta. Já de longe ele começava a tirar minha roupa, doutor. Eu não sabia o que fazer, pra onde olhar. E, depois que eu passava, seus olhos me queimavam, aquele olhar obsceno, doutor, subindo pelas minhas coxas, queimando minhas costas, doutor. Todo dia, doutor. Chegava em casa transtornada, enrubescida, sem jeito… Meu marido começou a desconfiar, doutor. Parecia que eu vinha de um encontro, doutor. Meu marido até insinuou, “que jeito é esse? Parece que fez sexo…”. E parecia mesmo, doutor. Pelo menos era o que eu sentia. Não tinha como disfarçar. Meu marido ameaçou, “se te pego com alguém…”. Mas nem podia ser, não é, doutor? Eu ia e vinha, não ficava fora de casa, era só passar na porta da oficina, era só sentir aquele olhar obsceno avançando nos meus seios, contornando meu ventre, descendo, descendo… Já não conseguia fazer sexo com meu marido, doutor. Lembrava dele, daqueles olhos obscenos me despindo, daquela promessa de loucura, doutor. Acordava de noite, levantava da cama, ardia de desejo, doutor. Aquilo ia acabar com meu casamento, com minha família, com minha vida, doutor. Eu tinha que dar um jeito, doutor. O primeiro tiro foi no peito. Aquele olhar de surpresa, doutor, “o que ela está fazendo?”, nunca mais vou esquecer. Não era obsceno, doutor, era de espanto, susto, desespero. Ele dobrou os joelhos. Agora seu olhar era de súplica, doutor, parecia que ia rezar. Dei mais três tiros, assim a esmo, pra garantir. Pra não me arrepender na última hora. O senhor entende, não é, doutor? Foi legítima defesa, doutor…

 

Aqueles olhos verdes

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Se ele soubesse o que viria depois teria parado antes. Bem antes.

Tudo começou quando Jolene, “meu pai chamava João e minha mãe chamava Darlene”, ela sempre se apressava em explicar, pediu um cigarro, “aceso, por favor”. Ele estava num inferninho, lá pelos lados da rua Vitória, e nunca tinha visto Jolene, ou Jô, como passou a chamá-la, naquele lugar. Loira de olhos verdes, boca carnuda ressaltada pelo batom excessivamente vermelho, um leve e encantador sotaque nordestino. E os seios que, embora pequenos, se faziam notar, ao arfarem, atrevidos, como se pontuassem o pedido, “aceso, por favor”.

Contou que nascera no Recife, que seus olhos verdes eram de origem holandesa, não, não das invasões holandesas, mas de seu pai, que não era João, era Johann, de Amsterdam, que se apaixonou por sua mãe, entre um frevo e outro, num carnaval que passou, que seu sonho era conhecer a terra de seu pai, estava juntando dinheiro pra isso, que viera para São Paulo porque achava mais fácil juntar dinheiro aqui, afinal aqui é que estava o dinheiro.

Foram parar num daqueles hotéis decadentes da Duque de Caxias, onde passaram a noite falando da vida, quer dizer, só ela falava, e ele não cansava de ouvir aquele encantador sotaque nordestino. Não fizeram sexo, pelo menos aquilo que o senso comum entende por fazer sexo, pois ouvi-la falando, com aquele sotaque encantador, era mais do que fazer sexo. Aquela boca vermelha, aqueles olhos verdes, aqueles pequenos seios arfantes. E aquela voz, aquele sotaque, falando só pra ele, não importa o quê, “aceso, por favor”.

Se apaixonou perdidamente, loucamente, desesperadamente. Repetiram aquela noite durante toda a semana. Toda noite. Às vezes nem entravam no inferninho onde se conheceram. Iam direto para o hotel suspeito. E passavam a madrugada fazendo aquele tipo de sexo que só eles entendiam, feito de sussurros, olhares, seios arfantes, boca vermelha, olhos verdes. E aquele sotaque, “meu Deus, não posso mais viver sem isso…”.

Prometeu que ela nunca mais teria que ganhar a vida naquele inferninho. Prometeu realizar seu sonho. Prometeu largar tudo e levá-la para Amsterdam, onde ela faria sucesso em boates elegantes, com aqueles olhos holandeses e aquele irresistível sotaque como se cantasse um frevo. Ele não sabia mais viver sem aqueles olhos verdes, aqueles pequenos seios arfantes, aquela boca vermelha falando, falando, falando…

Dizem que Jolene foi para Veneza com um nobre italiano, cinqüenta anos mais velho…

No cabaré, alguém canta “aqueles olhos verdes”… ele imagina um leve sotaque nordestino. Pede mais um fernet e um cigarro ao garçom.

Aceso, por favor…

 

A vida não tem ensaio

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Era como se fosse ao vivo. Cada vez que ele entrava no palco, ficava completamente cego. Não conseguia saber se havia ou não platéia. Quer dizer, saber ele sabia, pois a vaia era estrondosa. Mas não conseguia ver nada. E por que será que estavam vaiando? Claro que a vaia só podia ser para ele. Não havia mais ninguém no palco. Quer dizer, ele achava que não havia mais ninguém. Mas não podia jurar. Afinal, ele não enxergava nada.

Queria sair dali. Queria sumir dali. Queria não ter entrado no palco. Mas estava lá. Completamente cego. E a platéia, que ele não via, vaiava estrepitosamente.

Ninguém fica cego de uma hora para outra, pensava. Essa cegueira devia ser uma reação ao pânico que o palco lhe provocava. Entrar no palco sempre fora o pavor dos seus sonhos, o horror dos seus pesadelos, o suor frio de várias madrugadas ao acordar em sobressalto. Por isso a ideia de gravar antes. E não entrar ao vivo. Mas, se isso era uma gravação, por que não eliminaram as vaias da platéia? Por que não combinaram antes com a platéia?

Por que isso não foi ensaiado?

As vaias começavam a diminuir de intensidade. Parece que o povo havia cansado. Aos poucos, a sala foi sendo tomada por um silêncio absoluto. Será que todos se foram? Será que não tem mais ninguém na platéia?

Conseguiu vislumbrar uma fresta de luz vazando a pesada cortina que alguém havia fechado. Aos poucos, a visão foi voltando. Só então se deu conta de que a cortina nunca fora aberta, motivo da vaia da platéia, que só queria aplaudi-lo, tocá-lo, beijá-lo, arrancar suas vestes.

Mandou voltar a cena. Mandou fechar a câmera e, de olhos bem abertos, mandou abrir a cortina.

Jogou-se de braços abertos sobre a platéia vazia. Como quem se joga na vida, sem paraquedas, sem rede de proteção, sem seguro de vida.

Ao vivo, sem ensaio, sem replay.

 

O violinista

 

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Tinha um leve sorriso nos lábios. Daqueles sorrisos que uma lembrança suave provoca na gente. Um quê de tristeza, um quê de melancolia, até uma certa ironia.

Ele estava sempre lá, naquele banco da praça. Empunhava o que parecia ter sido, um dia, um violino. Nunca tocava. Só segurava, sobre o colo, com a vareta em uma das mãos, que de vez em quando fazia um movimento como se regesse uma orquestra invisível.

Algumas pessoas depositavam uma ou duas moedas na caixinha que ficava ao seu lado, no banco da praça. Quando isso acontecia, ele fazia menção de tirar o chapéu, num gesto muito elegante. Ele era elegante, naqueles trajes tão surrados.

Era bonito. Debaixo do chapéu, nas poucas vezes em que o tirava, além da simples menção de tirá-lo, geralmente quando se tratava de uma moça bonita a depositar uma moeda, dava para ver os cabelos desgrenhados, grisalhos, que formavam uma bela moldura para seu rosto expressivo, angular, com uma certa nobreza, e o sorriso, o leve sorriso, sempre nos lábios.

Nas minhas fantasias de ladrão de histórias, imaginava que ele era um nobre russo, ou um cavalheiro espanhol, que passara a vida lutando contra moinhos de vento em defesa da mulher amada, ou um jogador, que perdera toda a fortuna em cassinos elegantes, de Veneza a Monte Carlo, e um dia viera parar aqui, nos trópicos, com a única coisa que lhe restou dos tempos de glória, aquele velho violino.

Sempre tivera vontade de sentar ao seu lado, naquele banco da praça, oferecer um cigarro, como nos filmes antigos, e ouvir a sua história. Nunca fiz isso, não sei bem por quê, se por timidez, se por respeito ao espaço que parecia ser dele desde que aquele banco da praça existia, se por puro medo de que sua história não correspondesse às histórias que minha fantasia havia imaginado.

Até que um dia rompi as barreiras que eu mesmo havia criado, pedi licença e sentei ao seu lado. Ele fez um gesto com a cabeça como que permitindo a minha intromissão no seu mundo. Não se moveu, deixando para mim um pequeno espaço, uma vez que ele ocupava o centro do banco. Me ajeitei, criei coragem, e perguntei por que ele nunca tocava o violino.

Ele me olhou com sincero espanto. Fez um gesto largo com a mão que segurava a vareta, e disse, com um leve sotaque que não era russo, nem espanhol, nem alguma coisa que eu pudesse identificar:

Você não ouve? Você é muito jovem…

E continuou lá, regendo, de vez em quando, num gesto suave, a orquestra imaginária. Não falou mais nada. Nem eu tive coragem de perguntar. Fiquei mais um pouco, tentando ouvir aquela música que vinha de algum lugar e que só quem lutou contra moinhos de vento para defender a mulher amada poderia ouvir.

Hoje, quando volto àquele banco da praça, depois de ter lutado contra meus próprios moinhos, sento no lugar que era dele e, finalmente, consigo ouvir a musica que ele regia.

E um sorriso, um leve sorriso, aflora em meus lábios.

 

O personagem

 

size_810_16_9_cesta-lixo-2Essa história estava muito mal contada. Ele nunca estivera num boteco infecto. Nunca ficara num banquinho escondido lá no fundo do balcão, bebendo rabo-de-galo, esperando por uma mulher que nunca chegava. Muito pelo contrário. Frequentara a boca do luxo, era recebido como um príncipe no La Licorne, se envolvera com mulheres que dariam tudo, se é que não deram, para tirá-lo da noite e levá-lo, se não ao altar, pelo menos a uma quitinete no Edifício Copan. Nunca bebeu rabo-de-galo, quer dizer, lembrava apenas de uma vez, quando foi parar num cortiço lá pelos lados dos Campos Elíseos, visitando uma tia às portas da morte, e não pode recusar a bebida, oferecida pela prima, motivo real da visita, com quem acabou passando a noite num drive-in na avenida do Estado. Na verdade ele não abria mão do champanhe, nas noites em que a roda de pôquer, lá no Glicério, lhe era generosa. Como quando um dos jogadores fechou uma quadra de ás e ele, numa daquelas jogadas malucas de fim de noite, encheu a mão e a alma com um street flash até rei, e ainda por cima de ouros. Naquela madrugada as meninas do La Licorne, em volta da sua mesa, se afogaram numa outra dama francesa, La Grande Dame…

Esse idiota que está contando esta história não sabe nada da minha história, eu é que sou o personagem, ele não sabe nada do que está contando, acho melhor parar com isso, eu não vou aceitar essa avacalhação com a minha imagem, com rabo-de-galo num boteco infecto, esperando por uma mulher que não vem, como se eu precisasse disso, eu, o príncipe do La LIcorne…

Ouviu o papel sendo arrancado da máquina, com raiva. O que será que está acontecendo? Sentiu o papel sendo amassado. Espera aí, vamos conversar. Também não sou intransigente. Para com isso..

O papel virou uma bolota. Ele sentiu sufocar, sem espaço, como se seu mundo estivesse acabando. Teve a sensação de que estava voando. Em seguida parou, como se batesse em algo sólido. Dentro da bolota de papel, sufocando, sem espaço, sem boteco, sem balcão, sem champanhe, nem sequer um rabo-de-galo, pode ouvir o que, para ele, soou como uma sentença de morte:

Não sei o que fazer com esse personagem. Não rendeu. Amanhã acabo com ele…

 

O cabo de madrepérola

 

o-cabo-de-madreperolaGanhara o guarda-chuva de presente da tia rica. Guarda-chuva não era o presente dos sonhos de um garoto de onze anos. Ainda mais vindo da tia rica. Mas ele precisava. A mãe havia sugerido esse presente à sua irmã, a tia rica.

Ele estudava à noite. Primeiro ano do ginásio. Em São Paulo, naquele tempo, garoava quase toda noite. E a escola ficava a 5 quilômetros de distância de sua casa. Que ele percorria a pé.

É, pensando bem, ele precisava do guarda-chuva. E, já que esse era o presente, resolveu ser feliz com ele. Já na primeira noite levou-o consigo para a escola, embora não estivesse chovendo e nada indicasse que viria a chover naquela noite. Mas era o seu presente de aniversário! E o cabo era tão bonito, de madrepérola. “Cuidado, não vai esquecer o guarda-chuva na escola”, a mãe não cansou de recomendar. Sabia como ele era distraído.

Fez do guarda-chuva espada, espingarda, gancho do capitão de mesmo nome invariavelmente derrotado por Peter Pan. O guarda-chuva foi o grande herói das brincadeiras no pátio, antes das aulas e no intervalo.

Corre pra cá, corre pra lá, puxa pra cá, puxa pra lá, e o inevitável aconteceu: o lindo cabo de madrepérola rachou e se partiu ao meio. Não podia acontecer tragédia maior. Como explicar para a mãe, que tanto cuidado recomendara? Como dizer à tia rica, que com tanto carinho lhe dera? Como viver, dali para a frente, sem o guarda-chuva com o lindo cabo de madrepérola?

Chegou em casa bem tarde, com o guarda-chuva disfarçado debaixo do braço. A mãe sempre o esperava com um lanche, um suco, um agrado de mãe. Deu um jeito de passar primeiro no quarto, escondeu o guarda-chuva, e voltou para receber o agrado e dar boa noite.

Voltou para o quarto, fingiu que dormia, esperou o silêncio, foi ao banheiro, onde sabia que encontraria goma arábica e fita adesiva (naquele tempo não existia superbonder…). Voltou para o quarto, pegou o guarda-chuva, juntou os dois pedaços do cabo de madrepérola com a goma arábica, enrolou com a fita adesiva, escondeu dentro do armário, e rezou. Sabia que o remendo que fizera não teria nenhum efeito sem a intervenção divina.

Rezou a noite inteira.

Explicou pra Deus que não tivera a intenção de quebrar o lindo cabo de madrepérola do guarda-chuva que a tia rica lhe dera de presente de onze anos. Que faria qualquer coisa que Deus pedisse em troca desse milagre. Lá pelas quatro da madrugada não resistiu, e caiu no sono.

De manhã, antes de ir para a imobiliária do bairro, onde aprendia o oficio de auxiliar de escritório, eufemismo para garoto de recados, abriu a porta do armário, olhou o guarda-chuva, mas não teve coragem de tirar a fita adesiva para ver se o milagre se realizara. Deixou para a noite. Passou o dia esperando a noite. Esperando o milagre.

Esperou todo mundo dormir. Tirou o guarda-chuva do armário. Desenrolou a fita adesiva do lindo cabo de madrepérola que, solto da compressão da fita, voltou a ser o que era: um lindo cabo de madrepérola partido em dois pedaços. Um lindo cabo de madrepérola, inútil para sempre.

Sua decepção não poderia ter sido maior. Decepção só comparável ao dia em que a Lúcia, menina mais linda do bairro, lhe dissera que gostava de outro garoto, e não dele. Decepção não pelo guarda-chuva inutilizado, pelo lindo cabo de madrepérola partido, pelo presente de aniversário de onze anos irremediavelmente perdido.

A decepção era por descobrir que, embora todo-poderoso, Deus não sabia consertar cabo de guarda-chuva.

 

A mão esquerda

 

 Segurava o rosto dela com as mãos. Não podia acreditar que ela estava terminando tudo. Ela falava, falava, mas ele já não escutava mais nada. A última coisa que entrara pelos seus ouvidos fora “precisamos conversar… acho que é melhor cada um seguir seu caminho…”, que caminho, meu Deus, ele não queria seguir caminho nenhum, seu caminho era ela, sempre fora, o que ela está falando agora?, ele segurava seu rosto com as mãos, sentia as lágrimas dela em suas mãos, sentia seus próprios olhos turvos pelas lágrimas que não conseguia conter, o que fazer?, ela continuava falando, ele não ouvia mais nada, cada um seguir seu caminho, o que é isso?, tirou as mãos do rosto dela, deixou-a falando, saiu andando sem rumo, qual caminho?, o que ela quis dizer com isso?, numa das mãos, a esquerda, ainda sentia a maciez do rosto dela, como se sua mão esquerda permanecesse colada ao rosto dela, sensação esquisita, olhou para trás, seu braço esticara como borracha, homem-borracha, igual aquele dos quadrinhos, seu braço esticava mais e mais, sua mão esquerda continuava no rosto dela, meu Deus, ele não conseguia tirar a mão esquerda do rosto dela, virara a esquina, ela sumira de vista, mas sua mão esquerda continuava no rosto dela, seu braço esticava cada vez mais, isso não tinha fim, ele tinha que procurar seu caminho, cada um devia seguir seu caminho, atravessou a rua, atravessou a ponte dos suspiros, atravessou as muralhas da china, atravessou o arco do triunfo, atravessou o viaduto do chá, atravessou a pont neuf, seu braço continuava esticando, sua mão esquerda no rosto dela, virou a esquina, subiu a torre eiffel, saltou sobre as pirâmides do egito, não conseguia se livrar do rosto dela, sua mão esquerda, seu braço esticando, seguir seu caminho, o rosto dela, sua mão esquerda… só tinha um jeito de acabar com isso…

Acordou suando. Ao seu lado, na cama, ela olhava para ele, um olhar que ele não conhecia. Colocou sua mão esquerda no rosto dela. Sentiu o calor de uma lágrima. E ouviu, como se ainda estivesse sonhando, “precisamos conversar”…