Aqueles olhos verdes

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Se ele soubesse o que viria depois teria parado antes. Bem antes.

Tudo começou quando Jolene, “meu pai chamava João e minha mãe chamava Darlene”, ela sempre se apressava em explicar, pediu um cigarro, “aceso, por favor”. Ele estava num inferninho, lá pelos lados da rua Vitória, e nunca tinha visto Jolene, ou Jô, como passou a chamá-la, naquele lugar. Loira de olhos verdes, boca carnuda ressaltada pelo batom excessivamente vermelho, um leve e encantador sotaque nordestino. E os seios que, embora pequenos, se faziam notar, ao arfarem, atrevidos, como se pontuassem o pedido, “aceso, por favor”.

Contou que nascera no Recife, que seus olhos verdes eram de origem holandesa, não, não das invasões holandesas, mas de seu pai, que não era João, era Johann, de Amsterdam, que se apaixonou por sua mãe, entre um frevo e outro, num carnaval que passou, que seu sonho era conhecer a terra de seu pai, estava juntando dinheiro pra isso, que viera para São Paulo porque achava mais fácil juntar dinheiro aqui, afinal aqui é que estava o dinheiro.

Foram parar num daqueles hotéis decadentes da Duque de Caxias, onde passaram a noite falando da vida, quer dizer, só ela falava, e ele não cansava de ouvir aquele encantador sotaque nordestino. Não fizeram sexo, pelo menos aquilo que o senso comum entende por fazer sexo, pois ouvi-la falando, com aquele sotaque encantador, era mais do que fazer sexo. Aquela boca vermelha, aqueles olhos verdes, aqueles pequenos seios arfantes. E aquela voz, aquele sotaque, falando só pra ele, não importa o quê, “aceso, por favor”.

Se apaixonou perdidamente, loucamente, desesperadamente. Repetiram aquela noite durante toda a semana. Toda noite. Às vezes nem entravam no inferninho onde se conheceram. Iam direto para o hotel suspeito. E passavam a madrugada fazendo aquele tipo de sexo que só eles entendiam, feito de sussurros, olhares, seios arfantes, boca vermelha, olhos verdes. E aquele sotaque, “meu Deus, não posso mais viver sem isso…”.

Prometeu que ela nunca mais teria que ganhar a vida naquele inferninho. Prometeu realizar seu sonho. Prometeu largar tudo e levá-la para Amsterdam, onde ela faria sucesso em boates elegantes, com aqueles olhos holandeses e aquele irresistível sotaque como se cantasse um frevo. Ele não sabia mais viver sem aqueles olhos verdes, aqueles pequenos seios arfantes, aquela boca vermelha falando, falando, falando…

Dizem que Jolene foi para Veneza com um nobre italiano, cinqüenta anos mais velho…

No cabaré, alguém canta “aqueles olhos verdes”… ele imagina um leve sotaque nordestino. Pede mais um fernet e um cigarro ao garçom.

Aceso, por favor…

 

10 de novembro de 2016

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