Aquele olhar obsceno

 

 

45441ad545d8e32620c34fa9cda867e1-2 

O jeito como ele me olhava, doutor. Aquele olhar obsceno, doutor. Eu me sentia nua, perdida, violentada. Era todo dia, doutor. Quando eu vinha chegando ele já estava de pé na porta da oficina. Ele sabia a hora em que eu passava. Era de manhã e de tarde. Na ida e na volta. Já de longe ele começava a tirar minha roupa, doutor. Eu não sabia o que fazer, pra onde olhar. E, depois que eu passava, seus olhos me queimavam, aquele olhar obsceno, doutor, subindo pelas minhas coxas, queimando minhas costas, doutor. Todo dia, doutor. Chegava em casa transtornada, enrubescida, sem jeito… Meu marido começou a desconfiar, doutor. Parecia que eu vinha de um encontro, doutor. Meu marido até insinuou, “que jeito é esse? Parece que fez sexo…”. E parecia mesmo, doutor. Pelo menos era o que eu sentia. Não tinha como disfarçar. Meu marido ameaçou, “se te pego com alguém…”. Mas nem podia ser, não é, doutor? Eu ia e vinha, não ficava fora de casa, era só passar na porta da oficina, era só sentir aquele olhar obsceno avançando nos meus seios, contornando meu ventre, descendo, descendo… Já não conseguia fazer sexo com meu marido, doutor. Lembrava dele, daqueles olhos obscenos me despindo, daquela promessa de loucura, doutor. Acordava de noite, levantava da cama, ardia de desejo, doutor. Aquilo ia acabar com meu casamento, com minha família, com minha vida, doutor. Eu tinha que dar um jeito, doutor. O primeiro tiro foi no peito. Aquele olhar de surpresa, doutor, “o que ela está fazendo?”, nunca mais vou esquecer. Não era obsceno, doutor, era de espanto, susto, desespero. Ele dobrou os joelhos. Agora seu olhar era de súplica, doutor, parecia que ia rezar. Dei mais três tiros, assim a esmo, pra garantir. Pra não me arrepender na última hora. O senhor entende, não é, doutor? Foi legítima defesa, doutor…

 

18 de novembro de 2016

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *