Amores absolutos

Eu sempre tive uma profunda admiração, e, confesso, uma pontinha de inveja, de quem tinha alguma coisa “absoluto”. Tipo assim “ouvido absoluto”, “nariz absoluto”, por aí. Nos dois casos citados, a admiração, e a pontinha de inveja, não eram gratuitas. No caso do “ouvido absoluto”, a admiração se justifica porque eu considero a música a “grande arte”. Fazer música, para mim, é o dom supremo, maior que qualquer outra forma de arte. E a pontinha de inveja é porque sou incapaz de distinguir um ré de um si, um lá menor de um lá maior. E se chegarmos às fusas e semifusas, então, sou surdo como uma porta. Na verdade, o que eu queria ser na vida é maestro, que com um simples gesto de uma única mão faz brotar uma sinfonia de sons como se tivesse, nessa mão, uma varinha mágica. O que não deixa de ser verdade.

Já no caso do “nariz absoluto”, até recentemente a minha frustração era de que eu, um amante do vinho, era incapaz de distinguir os aromas mais simples, que os especialistas identificam num piscar de olhos. Melhor seria dizer num piscar de nariz, se a expressão existisse. Era uma frustação até eu descobrir que existe um código que só os especialistas conhecem: dependendo do vinho, ele, o vinho, traz intrinsicamente alguns aromas.
Por exemplo, ao cheirar um vinho tinto, e dizer que está sentindo aroma de frutas vermelhas, com certeza você acertou, para admiração dos que o cercam. Já para os vinhos brancos, você deve sentir aroma de frutas tropicais. Essa descoberta me deixou menos frustrado. Afinal, conhecendo um pouco desse código, dá pra gente enganar bem…
Mas isso não resolvia a essência do problema: a ausência de alguma coisa “absoluta”. Foi então que desenvolvi a idéia do “amor absoluto”. Todos nós, simples mortais, podemos ter “amor absoluto”. E não apenas um, mas vários. Do mais cristão amor ao próximo, até o amor por uma flor, pela natureza, pela humanidade, por um time de futebol. A única condição é que ele seja “absoluto”.
Eu, por exemplo, tenho vários. Um deles é o champanhe (acho mais elegante champanhe do que champanha). Meu amor pelo champanhe é tão absoluto que, embora os especialistas neguem sua veracidade, eu continuo acreditando que Dom Pérignon descobriu a mágica bebida por acaso e saiu gritando, divinamente embriagado, “estou bebendo estrelas”…
Gosto do champanhe a qualquer hora, em qualquer lugar. Uma taça de champanhe pela manhã, depois de uma noite de festa, obviamente regada a champanhe, é absolutamente reconfortadora. E, se você tem dúvida sobre qual bebida escolher para acompanhar um prato, simples ou sofisticado, pode pedir um champanhe. Ninguém vai reprovar sua escolha.
Enfim, escolha seus amores absolutos. Você vai ver como a vida fica mais rica e interessante. E se por acaso um deles for o champanhe, lembre-se de uma coisa:
 Champanhe combina com tudo, menos com tristeza.
Saúde!
12 de dezembro de 2011

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