Alimentando a alma

Adoro cinema. Quando jovem, queria ser cineasta. Passava horas nos cinemas de arte da época, os anos 60, vendo retrospectivas de Godard, Pasolini, Fellini, Bergman, enfim, uma lista interminável em uma época de efervescência cultural e política que culminou com as manifestações de maio de 68 em Paris e, no Brasil, com o AI 5, uma das maiores violências cometidas contra a liberdade e os direitos individuais em nossa história recente, sem falar na violência física contra milhares de brasileiros.
Como também queria entender o que acontecia em nossa sociedade, fui estudar sociologia. Desta eu tenho o diploma de bacharel em ciências sociais, embora continue não entendendo muito bem o que acontece em nossa sociedade. Já o curso de cinema na ECA eu não terminei, embora seja o que me deu muito mais entendimento do mundo em que vivemos.
Não virei nem sociologo, nem cineasta. Virei publicitário, e pude matar um pouco da minha vontade de fazer filmes. Sempre como roteirista, porque a direção eu considero uma mágica, um mistério, ao qual não tenho acesso.
Mas minha paixão pelo cinema, o cinema de verdade, existe até hoje. E como nestes últimos sete dias eu vi pelo menos cinco filmes maravilhosos, entre cinema, vídeo e televisão, queria dividir essa experiência com vocês. Quem sabe serve como sugestão para o próximo fim de semana.
O primeiro está em cartaz nos cinemas. “Tudo pelo poder”, com direção de George Clooney, que também é o protagonista, é um filme que merece ser visto. Certa parcela da crítica considerou-o politicamente ingênuo, como se todos nós tívessemos atingido a condição de hipócritas absolutos. Não concordo. Acho que, felizmente, ainda há espaço para acreditarmos que é possível alguma decência na política. Mesmo quando sofremos mais uma decepção, como no filme. Se não, aí sim, locupletemo-nos na hipocrisia.
O segundo e o terceiro eu vi em vídeo e estão disponíveis nas locadoras: “Poesia”, filme coreano que concorreu à Palme d’or, em Cannes, e, segundo boa parcela da opinião pública, deveria ter ganho. Delicado e forte, mostra as relações entre as pessoas dentro de uma lógica que não é a nossa. E “Homens e deuses”, sobre o episódio do sequestro dos monges franceses numa Argélia convulsionada pela guerra civil. Um exercício de fé, tenacidade e desprendimento em nome de um amor e uma causa maiores.
O quarto eu vi na televisão, por acaso, zapeando e, por sorte, peguei logo no comecinho: “As ponte de Madison”, magistral direção de Clint Eastwood, na linha tênue que separa a emoção do pieguismo, e uma atuação maravilhosa de Merryl Streep. Chorei muito.
O quinto e último, de volta ao cinema (entrou em cartaz por estes dias), foi “A separação”, maravilhoso filme iraniano que concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro e de melhor roteiro original. Em primeiro lugar, o filme nos mostra, ao contrário do a que a mídia nos desinforma, que no Irã existem pessoas normais, que vivem a vida, trabalham, dirigem automóveis, discutem, estudam, se amam e se odeiam. Mostra as diferenças religiosas através do conflito entre duas famílias, observado pelo olhar inocente de duas crianças. E, através de um roteiro muito bem construído, mostra que a verdade nem sempre está onde você acha que ela está. Muito pelo contrário, ela muda toda hora, a ponto de você não saber mais quem está com a razão. É um filme obrigatório para quem gosta de cinema.
Esta é a minha receita de hoje. Espero que tenha ajudado você a escolher um alimento para o seu fim de semana.
Afinal, alimentar a alma também é muito importante.
Bom apetite!
26 de Janeiro de 2012

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