Abadiânia – Impressões de uma viagem no tempo

 

Por do sol em Abadiânia.

Por do sol em Abadiânia.

Foram apenas 48 horas.
Mas parece que fiquei em Abadiânia muito mais tempo.
Quando cheguei, na terça-feira à tarde, foi como chegar a um lugar atemporal, onde o tempo só existe em função do momento de estar diante de João de Deus. Se eu tivesse que definir numa palavra o que senti desde aquele momento, não teria a menor dúvida: paz, muita paz. A mesma paz que sentia quando criança, e minha mãe me levava ao centro espírita Irmã Nice, na Mooca, onde sua amiga de infância, Madalena, recebia entidades, escrevia orações, e me dava passes que eu recebia convicto,  maravilhado, cheio de fé.

João de Deus atende na Casa Dom Inácio de Loyola, ou simplesmente a Casa, às quartas, quintas e sextas, em duas sessões, às 8 da manhã e às 2 da tarde.

“João de Deus está na lojinha lá em frente…” – alguém avisa na porta da pousada. É terça-feira e talvez ele já esteja mesmo em Abadiânia. Ele mora em Anápolis, ali pertinho. Mas tem também uma casa em Abadiânia. Todos corremos até o local indicado. Não conseguimos ver João de Deus. A moça que havia dado o alarme volta do fundo da loja, frustrada. “Ele esteve aqui, mas já saiu…”. Penso comigo, ela imaginou, João de Deus não vai ficar andando por aí…

Calcula-se que entre 1.500 e 2.000 pessoas circulem todos os dias pela pequenina Abadiânia. É gente do mundo inteiro. Mais estrangeiros do que brasileiros.

“Agora é ele… olha lá… é João de Deus”. Mais um alarme falso, penso eu… Procuro com o olhar para onde estão apontando. Lá está, ao volante do seu carro, com uma pessoa no banco do passageiro, João de Deus, em pessoa, como se estivesse mostrando a cidade para o acompanhante. O carro passa, ele olha pra nós. Não sei se me viu. Desviei o olhar, com medo de incomodá-lo com minha curiosidade, como se estivesse vasculhando indevidamente sua intimidade. Foi o primeiro momento de emoção.

Abadiânia foi fundada em 1953. Cortada pela rodovia BR060, sua população é estimada em 15 mil pessoas. O lado da cidade em que fica a Casa é formado por pousadas, hotéis, alguns restaurantes e lojinhas de souvenirs. Tudo muito simples. Nenhum luxo.

Estive diante de João de Deus por duas vezes, cara a cara. A primeira, em meu nome, na quarta-feira pela manhã. A segunda, em nome de meu filho, Fernando, a verdadeira motivação da minha viagem. Levei sua foto. Em ambas as vezes, a sensação de respeito por aquele homem. Pela entidade que ele incorporava. Pelas histórias que ouvira. Em ambas as vezes, ele receitou o tratamento, rabiscando numa folha de papel. Em ambas as vezes, peguei aquele pequeno pedaço de papel de suas mãos como se fora uma relíquia. Em ambas as vezes, uma pequena frustração: ele não falou comigo. Ou melhor, na primeira vez, disse alguma coisa que não entendi direito. Fiquei com vergonha de perguntar. Acho que ele disse apenas “vai com Deus”.

Antes de começar a atender à imensa fila que se forma, João de Deus realiza algumas operações numa espécie de palco, no salão onde cabem talvez umas quinhentas pessoas (não sou bom nesse tipo de cálculo). Com uma faca comum ele faz incisões. Algumas pessoas sangram. Ele costura. Eu vi. As pessoas são levadas para uma sala de repouso. Todas as pessoas vestem-se de branco. Todas as pessoas estão em busca de alguma cura. Todas as pessoas tem alguma doença. O que poderia parecer uma espécie de hospital a céu aberto é na verdade um encontro de gente com fé. Muita fé. O astral é altíssimo. Todos se ajudam, de alguma maneira. Não importa a raça, a cor, a língua que falam, alemão, italiano, inglês, francês. Acho que ouvi gente falando polonês. Não conheço polonês. Mas, não sei por que, acho que era polonês…

É impossível não se deixar tocar por aquele corrente. Na quinta-feira pela manhã coloquei à prova minha fé. Ou minha força de vontade. Ou minha perseverança. Não importa o nome. Para mim foi o momento mais importante da minha estada em Abadiânia. Enquanto João de Deus, assistido pelas entidades ao seu lado, realiza os atendimentos, cerca de trezentas pessoas se reúnem no mesmo salão, de olhos fechados, meditando, orando, criando uma corrente para ajudar João de Deus e seus mentores. Todos querem fazer parte da corrente. A fila para isso se forma bem antes do início dos trabalhos.

Acordei cedinho. Tomei o café da manhã bem rápido. Antes das 7 horas eu já estava na fila da corrente. E consegui entrar. Mas isso foi só o começo. Não sabia se agüentaria ficar 4 horas sentado num banco, de olhos fechados, mentalizando a cura do mundo, orando em nome de todos os que buscavam a solução para seus males, do corpo e da alma. Não pedi nada específico. Pedi harmonia. Para o corpo e para a alma. Fiquei até o fim.

Sai de Abadiânia na quinta-feira à tarde, exatamente 48 horas depois da chegada. Com a sensação de ter ficado muito tempo, o tempo suficiente para resgatar a inocência da infância, a fé de  acreditar que estou sendo cuidado, como fazia dona Madalena, com seus passes, suas orações, irradiando paz e harmonia. Quem sabe dona Madalena não estava ali, naquele palco, entre as entidades que cercavam João de Deus, feliz por me ver novamente…

 

 

26 de março de 2014

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