A vida não tem ensaio


“Deveríamos ter duas vidas, uma para ensaiar e outra para viver”.
A frase do genial ator, autor e diretor italiano Vittorio Gassman (01/09/1922 – 29/06/2000) sempre mexeu comigo. Inspirou-me até um dos contos que está publicado no meu outro blog, sobretudoounada/blogspot.com, sob o título “O palco”. A idéia de uma vida para ensaiar e outra para viver não deixa de ser fascinante. Aparentemente seria a solução perfeita para evitar os desencontros, as decepções, os desamores, enfim, os percalços que nos atingem durante a vida. Mas será que evitaria mesmo? Será que não seria apenas um jeito de nos acomodarmos naquilo que aparentemente deu certo?
Mas essas elocubrações são dispensáveis. A vida não tem ensaio. O que quer dizer que viver continua sendo arriscado. E viver uma vida que vale a pena é correr riscos, é buscar o novo, aquilo que a gente não tem certeza de que vai dar certo, mas que é a essência de uma vida que, de alguma maneira, faz diferença.
Se não, é como um ator que fica repetindo o mesmo texto ad eternum, porque uma vez deu certo, mas que, a cada nova encenação, vai ficando mais monótono, mais mecânico, a ponto de não emocionar a mais ninguém.

Isso se aplica também à culinária. O fato de você repetir a execução do mesmo prato um milhão de vezes não significa que ele vai ficar cada vez melhor. Porque, dependendo do seu humor, do humor das pessoas para quem você está cozinhando, da adequação daquele prato àquele momento, ele pode ser um sucesso ou um fracasso, independente de quantas vezes você já o fez.
Este prato aí da foto, por exemplo, eu já fiz mais de cem vezes. E ontem, domingo, eu fiz de novo, em casa, num almoço de domingo para amigos queridos. Esse prato tem para mim, inclusive, uma memória afetiva: aprendi com minha mãe, que sempre o fazia aos domingos, para o almoço da família. É um ragu de músculo, muito fácil de fazer, só precisa de paciência. É assim:
Eu refogo uma cebola bem picadinha e um dente de alho inteiro (que depois eu retiro) no azeite extra virgem.
Acrescento um bom pedaço de panceta cortada em cubos (se não tiver panceta, pode usar bacon de boa qualidade).
Acrescento, ainda refogando, algumas folhas de louro (eu coloco pelo menos meia dúzia de folhas).
Agora que a cebola e a panceta já estão douradas, acrescento o músculo em pedaços grandes (ontem eu usei 1 quilo). Deixo o músculo dourar de todos os lados.
Finalmente acrescento o tomate pelado italiano. Para este almoço de domingo, para 6 pessoas, coloquei 6 latas pequenas. Acrescentei a mesma quantidade de água. Tampei a panela e deixei cozinhando em fogo lento.
Agora entra a paciência: o músculo ficou cozinhando durante 4 horas. Então eu tirei os pedaços da panela, que já estavam desmanchando, e ajudei a desmanchar com o garfo. Retornei o músculo à panela e deixei cozinhar por mais 2 horas. Retirei as folhas de louro e o alho inteiro. Acertei o sal. Pronto.
Servi com rigatone, mas você pode servir com a massa que preferir. Minha mãe servia com orechietti, ou riquitela, no dialeto de Bari. É a minha preferida, principalmente se for fresca, difícil de encontrar hoje em dia.
Em tempo: ficou uma delícia. Espero que o seu também fique!
Bom apetite!
28 de novembro de 2011

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