A vida não tem ensaio

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Era como se fosse ao vivo. Cada vez que ele entrava no palco, ficava completamente cego. Não conseguia saber se havia ou não platéia. Quer dizer, saber ele sabia, pois a vaia era estrondosa. Mas não conseguia ver nada. E por que será que estavam vaiando? Claro que a vaia só podia ser para ele. Não havia mais ninguém no palco. Quer dizer, ele achava que não havia mais ninguém. Mas não podia jurar. Afinal, ele não enxergava nada.

Queria sair dali. Queria sumir dali. Queria não ter entrado no palco. Mas estava lá. Completamente cego. E a platéia, que ele não via, vaiava estrepitosamente.

Ninguém fica cego de uma hora para outra, pensava. Essa cegueira devia ser uma reação ao pânico que o palco lhe provocava. Entrar no palco sempre fora o pavor dos seus sonhos, o horror dos seus pesadelos, o suor frio de várias madrugadas ao acordar em sobressalto. Por isso a ideia de gravar antes. E não entrar ao vivo. Mas, se isso era uma gravação, por que não eliminaram as vaias da platéia? Por que não combinaram antes com a platéia?

Por que isso não foi ensaiado?

As vaias começavam a diminuir de intensidade. Parece que o povo havia cansado. Aos poucos, a sala foi sendo tomada por um silêncio absoluto. Será que todos se foram? Será que não tem mais ninguém na platéia?

Conseguiu vislumbrar uma fresta de luz vazando a pesada cortina que alguém havia fechado. Aos poucos, a visão foi voltando. Só então se deu conta de que a cortina nunca fora aberta, motivo da vaia da platéia, que só queria aplaudi-lo, tocá-lo, beijá-lo, arrancar suas vestes.

Mandou voltar a cena. Mandou fechar a câmera e, de olhos bem abertos, mandou abrir a cortina.

Jogou-se de braços abertos sobre a platéia vazia. Como quem se joga na vida, sem paraquedas, sem rede de proteção, sem seguro de vida.

Ao vivo, sem ensaio, sem replay.

 

31 de outubro de 2016

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