A mochila vermelha

Para dizer a verdade, nem era pra ele estar lá naquele momento. Fora tudo um mal entendido. Aquela mensagem não era para ele. Mas, distraído como sempre, nem notara. Pegou seu casaco e se mandou para a rodoviária. Esqueceu de pegar os documentos.

A mensagem dizia para ele esperar na área de desembarque. Ela estaria carregando uma mochila vermelha.

Quem era ela mesmo? Ah, claro, Margô. Pelo menos era o nome que assinava a mensagem. Mas quem era Margô? Só podia ser Margarida, que ele encontrara chorando num dos corredores do Copan, na ala das quitinetes, dizendo que precisava de dinheiro pra ver o pai, coitado, sozinho, em Itapira, à míngua, à beira da morte, e que um conhecido, que demorou para localizá-la, levou para um albergue da Santa Casa, e pelo menos lhe davam uma sopa quente. Quer dizer, não tão quente. Mas era o que tinha.

Claro que ele entregou o dinheiro que tinha no bolso, que não era muito, mas dava pra comprar a passagem de ônibus. E foi a última vez que a viu. Isso já tinha uns dois meses.

Agora, enquanto esperava, matutou: se era Margarida, a que ele conhecia dos corredores do Copan, por que ela explicava na mensagem como identificá-la, pela mochila vermelha, se ele já a conhecia?

Vai ver é coisa de mulher, esses mistérios. O que ele esperava, e por isso atendera tão afoito à mensagem, que nem era para ele, é que ela pagasse o que lhe devia.

Lá vem a mulher com a mochila vermelha. Não é Margarida. Ele não tem a menor ideia de quem seja. O que eu faço? Por via das dúvidas, se aproximou dela. A mulher parou em frente a ele. Olhou bem nos seus olhos. E lhe entregou a mochila vermelha.

O que é isso? Calma, gente. Vocês estão pegando a pessoa errada. Eu estava esperando a Margarida. Ela disse que vinha com uma mochila vermelha. Vocês estão enganados. Eu só queria o dinheiro que emprestei pra ela… nem cigarro eu fumo…

No camburão, as pessoas olhando para ele com ar de reprovação, ele tenta entender o que aconteceu. E a Margarida que não aparecia para livrá-lo daquela situação. A mulher da mochila vermelha parece ser amiga dos homens que o jogaram ali como se fosse um saco de batatas. Mas ninguém ouve o que ele diz. E, ainda por cima, esqueceu de pegar os documentos…

 

17 de Janeiro de 2017

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