A mão esquerda

 

 Segurava o rosto dela com as mãos. Não podia acreditar que ela estava terminando tudo. Ela falava, falava, mas ele já não escutava mais nada. A última coisa que entrara pelos seus ouvidos fora “precisamos conversar… acho que é melhor cada um seguir seu caminho…”, que caminho, meu Deus, ele não queria seguir caminho nenhum, seu caminho era ela, sempre fora, o que ela está falando agora?, ele segurava seu rosto com as mãos, sentia as lágrimas dela em suas mãos, sentia seus próprios olhos turvos pelas lágrimas que não conseguia conter, o que fazer?, ela continuava falando, ele não ouvia mais nada, cada um seguir seu caminho, o que é isso?, tirou as mãos do rosto dela, deixou-a falando, saiu andando sem rumo, qual caminho?, o que ela quis dizer com isso?, numa das mãos, a esquerda, ainda sentia a maciez do rosto dela, como se sua mão esquerda permanecesse colada ao rosto dela, sensação esquisita, olhou para trás, seu braço esticara como borracha, homem-borracha, igual aquele dos quadrinhos, seu braço esticava mais e mais, sua mão esquerda continuava no rosto dela, meu Deus, ele não conseguia tirar a mão esquerda do rosto dela, virara a esquina, ela sumira de vista, mas sua mão esquerda continuava no rosto dela, seu braço esticava cada vez mais, isso não tinha fim, ele tinha que procurar seu caminho, cada um devia seguir seu caminho, atravessou a rua, atravessou a ponte dos suspiros, atravessou as muralhas da china, atravessou o arco do triunfo, atravessou o viaduto do chá, atravessou a pont neuf, seu braço continuava esticando, sua mão esquerda no rosto dela, virou a esquina, subiu a torre eiffel, saltou sobre as pirâmides do egito, não conseguia se livrar do rosto dela, sua mão esquerda, seu braço esticando, seguir seu caminho, o rosto dela, sua mão esquerda… só tinha um jeito de acabar com isso…

Acordou suando. Ao seu lado, na cama, ela olhava para ele, um olhar que ele não conhecia. Colocou sua mão esquerda no rosto dela. Sentiu o calor de uma lágrima. E ouviu, como se ainda estivesse sonhando, “precisamos conversar”…

 

28 de setembro de 2016

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