A grappa e suas deusas

Diz a lenda que, sempre que podiam, Federico Fellini e Marcello Mastroianni se reuniam na casa do primeiro, em Rimini, e sob os olhares  complacentes da divina Giulietta Masina, mulher e musa do mestre, consumiam cálices e cálices de grappa, em seu estado puro. O assunto à mesa era o mais variado, e, ainda segundo os poucos que tiveram o privilégio de assistir a um desses momentos, totalmente irrelevante. Mesmo porque, a partir de um certo número de doses ingeridas, os dois gênios italianos começavam a discutir em inglês, para surpresa de quem estivesse participando do etílico momento. Surpresa reforçada pelo fato de que nenhum dos dois falava inglês. Ou seja, pouco importava o assunto…

A grappa é pródiga em propiciar momentos de absoluto enlevo, amizade generosa, espírito desarmado, como se toda a humanidade fosse digna dos nossos mais puros sentimentos. Isso depois de algumas doses, é claro. Segundo outra lenda, esta familiar, meu avô, que também se chamava Nicola, passou uma madrugada inteira levando seu amigo para casa, e sendo trazido de volta pelo amigo. É que a cada vez que um chegava na casa do outro, eles tomavam uma saideira, um último cálice de grappa. Dizem que minha avó, mulher de fibra, recolheu a ambos, quando o dia amanhecia, dormindo profundamente na porta de casa, como se estivessem no paraíso. E provavelmente estavam.
A grappa é produzida no norte da Itália, mais especificamente na região do Friuli, na fronteira com a Áustria e a Eslovênia, a partir da fermentação e posterior destilação do bagaço da uva. Os primeiros documentos que dão conta desse processo são datados do ano 511 d.C., mas parece que a produção do destilado para consumo só se deu a partir do ano 1.000. Variando de 39o a 60o , a grappa se encaixa na categoria das acqua vitae, ou água da vida, como a vodca, o brandy, o poire, e outros destilados de frutas. Durante muitos séculos a grappa foi uma bebida rústica, feita sem maiores cuidados, com as sobras da vinificação, e servia para aquecer os soldados no inverno. Foi só a partir do século XX que alguns produtores começaram a produzi-la com maiores cuidados, até transformá-la na bebida sofisticada de hoje.
E o passo definitivo que colocou a grapa nas alturas, por incrível que pareça, não foi obra de nenhum homem, como poderia levar a crer a rusticidade da bebida. A grande virada foi dada em 1973 por Giannola Nonino que, com o apoio do marido, Benito, resolveu produzir uma grappa artesanal com apenas uma variedade de uva, a picolit, uma cepa branca rara, típica do Friuli. Nascia aí o conceito de grappa monovarietal, e a fama da picolit, a uva ícone de todas as grappas. Hoje a casa Nonino, fundada em 1897, produz aquela que é considerada por muitos a melhor grappa italiana, e portanto do mundo, a grappa Nonino.
E quem continua à frente da casa? Gianolla Nonino e suas belíssimas filhas, Cristina, Antonella e Elisabetta, que percorrem o mundo como garotas propaganda da marca, e já estiveram inclusive aqui no Brasil, para felicidade de quem pode participar do encontro. E o cuidado da Nonino não para no líquido, maravilhoso, que está dentro de cada garrafa. As fotos dos tags que acompanham as garrafas foram feitas por ninguém menos que Oliviero Toscani…
Se você nunca experimentou esse líquido dos deuses, você pode começar misturando-o ao café, como fazem os italianos nos dias mais frios, inclusive pela manhã, antes de sair para o trabalho. Pode saboreá-la como digestivo, levemente gelada. Ou pode colocá-la no freezer, como se faz com a vodca. Só que aí o perigo é maior, pois ela desce como uma verdadeira carícia. E você vai ficando cada vez mais sentimental. Pois se na terra que já se chamou Enótria o vinho é sua alma, ouso dizer que a grappa é o seu coração…

Saúde!
9 de outubro de 2012

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.