A “falsa paella”

Localizada na costa mediterrânea da Península Ibérica, Valência é conhecida pelo seu clima ameno, seus jardins, seus museus, seus monumentos, suas festas. E pela “paella valenciana”.
Por falar nisso, jamais convide um espanhol para comer uma “paeja”. Isso é uma ofensa de lesa culinária. A pronúncia correta é algo próximo de “paelha”.
Dito isto, é bom lembrar também que paella é um prato tradicionalmente executado por homens. Nas suas origens, na região de Valência, na Espanha, nos séculos XVI e XVII, quando saiam para trabalhar, os homens levavam para o campo arroz e azeite, e uma panela larga de fundo raso. Quando batia a fome eles faziam a paella com os ingredientes que tinham à mão: o coelho recém-caçado, uma perdiz, legumes, cogumelos, cozidos na tal panela, mais tarde chamada de “paellera”. O formato da panela favorecia o cozimento por igual do arroz e dos ingredientes disponíveis.
Com o tempo a paella foi ganhando novos ingredientes, inclusive frutos do mar, dando origem ao prato que conhecemos e apreciamos hoje. Aliás, numa subversão total da autêntica “paella valenciana”, uma das mais pedidas hoje em dia, pelo menos aqui no Brasil, é a de frutos do mar, sem outros ingredientes que não tenham sua origem nas águas do mar.
Confesso que não sei fazer paella. Não consigo me entender com os tempos de cozimento de cada ingrediente. Acho tudo muito difícil. Então quem fez a paella da foto? Meu amigo, minha amiga, como eu confesso já no título deste post, esta é uma “falsa paella”. Ou seja, roubei no jogo. Foi o jeito que encontrei de fazer o delicioso prato sem ter que passar pelo trabalhoso, e para mim torturante, processo de execução tradicional. Claro que os puristas vão torcer o nariz. A eles, peço minhas humildes desculpas. Mas garanto que o resultado é saboroso. E você pode comprovar seguindo os passos abaixo:
“Falsa paella”
Existe nos bons supermercados, no balcão de congelados, na área de frutos do mar,  um kit denominado “ingredientes para paella”. Nele você vai encontrar lulas em rodelas, pedaços de polvo, mexilhões, vieiras e camarões pequenos, tudo no tamanho certo para ir para a panela. Cada kit dá para duas ou três pessoas. Alguns, como o do Santa Luzia, vêm com um envelope de tempero à base de açafrão, que você pode ou não usar. Como iria cozinhar para quatro ou cinco pessoas, comprei dois kits. Deixei os kits na geladeira para descongelar de um dia para o outro. E quando chegou a hora, fiz o seguinte:
Refoguei uma cebola bem picadinha e dois dentes de alho também picados em azeite extra virgem. Não usei a paellera. Em seu lugar usei uma marmita da Creuzet, a que aparece na foto. Quando a cebola e o alho ficaram dourados, joguei na panela 400 gramas de arroz basmati. Mas você pode usar outro arroz de sua preferência, menos o italiano, pois não vamos fazer um risoto… Refoguei o arroz por 3 minutos. Então despejei um copo de vinho branco de boa qualidade. Mais 3 minutos e coloquei no refogado o conteúdo dos dois kits. Usei o saquinho de tempero que veio junto com o kit, à base de açafrão, mas você pode usar o próprio açafrão, até atingir aquela coloração dourada típica da paella. Cobri com água previamente aquecida. Deixei cozinhar como se fosse o arroz normal, com a panela semitampada. Quando a água estava quase secando, tirei do fogo e soltei o arroz com o garfo. Não vai ficar solto como na paella verdadeira, nem molhado como no risoto italiano.
Levei a panela à mesa, como você está vendo na foto, pois estava muito bonita. Assim as pessoas podiam se servir a gosto. Por falar nisso, acertei o sal antes de servir.
Viu como é fácil? É uma “falsa paella”. Mas, além de gostosa, faz uma bela figura, não é mesmo? Sirva com um chardonnay, ou, se você não abre mão dos tintos, vale um pinot noir do Novo Mundo. Fica ótimo também com uma Urquel bem gelada, ou mesmo uma Stella Artois.
Bom apetite!
8 de novembro de 2012

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.